sexta-feira, 31 de julho de 2009

A corrida ao silicone continua a dar votos e encher parlamentos a Europa é uma serpente de silicone e passa os dias em solários para disfarçar o cancro que lhe vai na alma

Continuo a ser visitado por personagens e vozes de textos de outros autores e que me confessam os maus tratos a que são sujeitos para que os livros tenham aceitação pública prémios Nobel sorri e prestígio internacional

Não entro nesse jogo

Em Portugal os poetas cospem-se mutuamente

Os pensadores escondem-se dentro de armários a pensar o já pensado até à exaustão

Os cientistas são vedetas do espectáculo instantâneo onde aconselham a melhor maneira do espectador senil a ter um corpo e mente sã ao mesmo tempo que descobriram a escrita criativa de auto-ajuda e terapêutica

Os artistas plásticos desfazem em instalações vídeo para dourar a pílula a quem vive na cauda da Europa

E o resto uma enorme feira medieval cercada por aterros

sanitários onde os seus directores abrem bibliotecas com os livros que os consumidores adquirem por engano a peso onde o infantil Magalhães não tira os olhos do Youtube onde passa o vídeo onde essa Coisa italiana exibe o “seu” pizza de silicone castrado em pseudo-orgia a paparazzi pagos para o efeito

Entretanto e segundo as últimas noticias o povo continua a ter razão a cadeia não foi feita para os cães que continuam a ladrar a bondade da sua corrupção e a legitimidade da censura a bem da liberdade de expressão porque a liberdade deve ter limites e a democracia a sua prostituta

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Aqui não há página em branco há apenas o branco um branco cada vez mais sujo de esquemas de áreas de transferência tipos de letra parágrafo estilos editar ênfase forte e a louca vontade de nos satisfazer localizar substituir seleccionar a vontade de contar uma história cada vez mais branca acabada esgotada de suplementos ver rever mailings referências inserir base e o nosso rosto perdido nessa imensa brancura que é a injustiça do esquema de página em branco vazio passado na brasa como nos informa numa esplanada um restaurante não muito longe do alcance dos binóculos que Nobel me facilitou para apreciar o eclipse total mas temporário do branco olhar da ficção porque tudo é virtualmente real
Hoje recomendamos vazio assado na brasa cinicamente diz que deve ser cão dado que alguns restaurantes foram encerrados por servirem cão
Não muito longe um cartaz político anuncia que estamos dentro de mais um ciclo eleitoral
É preciso renovar a classe política a velha é arguida e está em casa com uma correia electrónica para não fugir para um offshore

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Algemado lá vou eu para a feira do livro dar uns autógrafos e falar das minhas conversas com deus

e todo um mundo bipolar de patetices dirão uns diarreia mental dirão outros sobre o meu estúpido trabalho que ninguém respeita nem lê dizem que as vendas vão dando para o prejuízo e claro falar mal de alguns colegas de ofício deste santo ofício de dizer escrever a verdade e de ter uma ligação aos patéticos problemas do nosso pequeno mundo bem muito bem contem comigo mas só vou algemado e com uma máscara só assim me sinto bem fora do meu meio-ambiente natural a realidade  só assim me sentirei capaz de estar umas horas  aberto ao público que não tem tempo para ler mas que compra livros nem que seja para os mandar para o lixo e é com agrado que muitos dos meus livros têm aparecido nos aterros sanitários tal como foram adquiridos repito em bom estado de conservação repito ainda com o preservativo o que é óptimo depois deste retirado estará como novo mas não são só os meus mas também os dos meus colegas bem é bom saber que junto a cada aterro sanitário está a nascer uma biblioteca a minha vinda ao mundo já teve alguma utilidade tanto mais que uma outra tem o meu nome e em breve segundo agendou Nobel exige a minha presença  estão há espera de que a população saiba ler e escrever através das novas oportunidades para que o diálogo seja possível 

 

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ponto final parágrafo o monstro seduz-nos desajeitadamente pelo vazio da nossa época alguém sai do escuro e não pára de tossir e admite apesar de tudo que somos todos testemunhas do impossível está a corrigir as provas de uma biografia não autorizada dum homem de bem e onde é desenvolvida uma narrativa recheada de factos comprovados por documentos devidamente fundamentados tem de novo um ataque de tosse não pode adiantar mais nada dado o carácter deontológico da sua actividade nas entrelinhas dá para entender que o dito homem de bem não passará de um monstro e volta de novo a dissolver-se no escuro

 

Nobel lembra-se desta personagem comum a todo aquele que vê e que se rodeia por todos aqueles que olham e a cegueira exerce-se para lá dos limites do finito mas para cá do indizível e se a morte essa vaca nos reúne para lá dos limites dentro do segredo da sua visibilidade o poeta retalha com a faca dessa experiência demoníaca e que a fé domestica a caminho da montanha lendo os mais recentes livros de auto-ajuda «porque cada um de nós, nós todos, no segredo das nossas vidas, estamos sozinhos na criação de nós próprios, através de obras, cujo desejo nasce das nossas histórias únicas.» N. Jeammet

 

Levanto-me para apanhar uma cereja não é uma cereja mas um berlinde um olho de vidro chamo pelo revisor de provas que sai imediatamente do escuro e sim o olho de vidro é dele já o tinha dado como perdido voltou a esconder-se na criação da sua solidão

 

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Como toda a pessoa de bem sinto-me impotente perante a degradação do estado de direito justiça com as próprias mãos será essa uma das tarefas da escrita sou visitado por personagens em alto estado de degradação moral que tentam a redenção entre o fanatismo e o delírio e são todos fotogénicos e a justiça liberta-os por falta de provas e prontos a máquina eleitoral aí está com eles à cabeça uma que se diz sacerdote e portador do vírus da sida interrompe-me a leitura dos jornais e começa a disparatar como acima lemos estava cansado de estar de olhos abertos e de ouvir em confissão todos os corruptos do seu país deixo-o falar esperando que Nobel apareça o mais depressa possível estou cansado de fechar os olhos diz contradizendo-se não passo dum parasita ao serviço do sagrado e gostava de contar a minha história ouvi dizer que você tinha uma arma fecha os olhos para de seguida abrir o olho direito lá anda a estúpida aranha abre o olho esquerdo e atira-lhe com uma das pantufas
Os tuberculosos não devem escarrar no chão aconselha distorcendo a voz em casa e fora dela devem escarrar num lenço que será metido em água a ferver antes de ser lavado
Puta vai dar ordens aos teus
Os tuberculosos não devem engolir o escarro nem as mucosidades do nariz
Prontos estamos livres meu caro de qualquer tipo de contaminação temos que livrar o estado de semelhantes parasitas eu contra mim falo sim sei que não posso divulgar semelhantes testemunhos mas não devemos deixar que a nossa cidadania seja exercida pela corrupção
Sou contra o segredo bancário contra o aborto olha-me com cinismo e ofereço-me para testemunhar a favor do estado de direito e fui aqui enclausurado como portador do vírus da sida e informaram-me que você estava por cá e cá estou eu disponível para testemunhar não vai correr comigo como se eu fosse um dador de sangue
diz umas palavras em latim eram mais grunhidos que penso virem do latim e dos seus fungos teológicos gargalho e pontapeio esta letal personagem da página em branco
Procuro a dor
Grita a plenos pulmões
Não se devem aproveitar os restos de comida deixada pelo tuberculoso
Medito sobre estes fragmentos sobre estes escombros literários que fui abandonando ao longo da minha escrita e tento encontrar algum sobrevivente

Nobel entra e olha estupefacto para os jornais rasgados espalhados pelo chão

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Sim confesso que tudo não passa de uma campanha negra contra a minha pessoa era a minha vez de falar o televisor olha-me com reprovação procura-se doente mental tem aproximadamente a idade de Cristo
Desapareceu sem deixar rasto e ao que se sabe sem roupa cuidado pode ser perigoso falou sempre com o dedo acusador apontado à minha pessoa que a tinha tentado violar o esperma que encharcava o seu monte de Vénus era meu sim veio doce tal príncipe encantado e seduziu-me como ninguém falei-lhe dos meus problemas falei falei falei era a minha vez de falar de não dizer nada estive tentado a explicar-lhe tudo é um monstro penetrou-me com a sua arma eu paralisada tal soldado de chumbo só pedia a Deus que me levasse não era nesse sentido continuou racionalmente a possuir-me com o crucifixo comecei a ter desequilíbrios perguntou-me a razão pela qual eu estava sempre a dizer que não valia dizer mais nada sim não tinha mais nada para sentir estava vazia por dentro como um pipo não era bem isso que queria dizer sintomas muitos sintomas e pesadelos muitos pesadelos neste real desordenado e com ar evangelizador de todas aquelas almas penadas simplesmente humanas na sua desordem a sociedade está num beco sem saída obesa o suficiente tal como ela simplesmente mortas para serem úteis à fé de recusar o Livro e concentrar-se completamente na natureza que asfixiada sim já sentia dificuldades em completar o raciocínio eram os nervos sentia-se cansada e já não seguravam a linguagem sem deixar de me apontar o dedo sim veio para me liquidar e penetrou-me anal mente com um crucifixo de tal maneira que o meu intestino nunca mais o libertou de seguida fiquei diabética não parei de engordar e deixei de acreditar em Deus esse senhor aponta na minha direcção é o Anticristo defequei-o ao terceiro dia

sexta-feira, 13 de março de 2009

Reconfortante este banho meu caro Nobel que seria de mim sem este mergulho de essências silvestres no sofrimento humano
Tens umas mãos maravilhosas lava bem este pobre cadáver este fardo mortal que tem andado perdido sem se lavar pelos infantis caminhos da náusea gosto de me perder vadiar sem destino fui até à minha aldeia pedir perdão a quem me criou depois enfiei-me por aqueles caminhos de betão que gloriosamente plantam que transformaram o meu país numa pista de carros de choque
de Tgv e pista de aviões morrem como mosquitos agarrados digitalmente ao Magalhães nas auto-estradas da informação isso esfrega-me o calor lá na terra da verdade não estou habituado é trovão os gatos andam de sombrinha desculpa este impróprio desabafo dum pobre homem das letras porque não gozar a vida pegar em todas as minhas economias e ir para o fim do mundo gastar toda a minha miserável fortuna nos casinos lembro-me que foi isso que fiz na infância agarrado às mãos morais dos meus pais estou a tornar-me cansativa
pior que isso velha tonta que fazes psicanálise barata babas-te de ciúmes não me pode ver tal como o meu país nesse banho medíocre de fundos teológicos dizes-me que não passo dum parasita ao serviço de um deus morto tal como esse crítico fabuloso que enlouqueceu ao agarrar-se a um dos seus dedos o meu pai morreu tuberculoso de querer regressar ao útero é o que se leva desta viva por gozo dizia e adorava chamar à vagina o santo sacrário o meu pai morreu a morder o próprio sexo
seca-me Nobel e perfuma-me